SAR (Taxa de Absorção Específica)
3.1 O que é
O SAR — specific absorption rate, ou taxa de absorção específica — é a taxa a que a energia é absorvida pelo corpo quando exposto ao campo eletromagnético de radiofrequência, expressa em watts por quilograma de massa corporal. É o parâmetro habitualmente apresentado na rotulagem MR Conditional para controlar a quantidade de potência de RF aplicada ao doente. [20]
É importante compreender de onde vem o número apresentado na consola. O SAR depende do doente e varia com o seu tamanho e massa, e não existe forma direta de o medir antes ou durante o exame. Em consequência, os fabricantes de equipamento recorrem a modelos numéricos para o estimar. O valor apresentado deve ser interpretado como uma estimativa quantitativa com algum grau de imprecisão, e não como um limite sólido de segurança — até porque cada fabricante difere no método de estimativa. [20] [23]
3.2 Modos de funcionamento
A norma IEC 60601-2-33, desenvolvida em articulação com a FDA, define três modos de funcionamento do equipamento em função do risco percebido para o doente. Os critérios de cada modo assentam principalmente no SAR, mas incluem também a intensidade do campo estático, a taxa de variação dos gradientes, a região do corpo estudada e a subida de temperatura. [6] [11]
| Modo | Definição | Requisitos |
|---|---|---|
| Normal | Nível de rotina em que é realizada a maioria dos exames clínicos, considerado seguro para todos os doentes independentemente da sua condição | Nenhuma vigilância especial exigida ao operador |
| Controlado de primeiro nível | Nível em que determinados parâmetros de aquisição podem causar stress fisiológico, como estimulação nervosa periférica ou aquecimento tecidular | Exige supervisão médica ativa e avaliação benefício-risco; o equipamento deve apresentar e registar dB/dt e SAR e avisar quando o modo está prestes a ser atingido |
| Controlado de segundo nível | Nível que excede os limiares definidos | Exige aprovação específica; utilização restrita a investigação |
3.3 Limites de SAR
A norma classifica o SAR em vários subtipos consoante a região exposta e o tipo de bobina de transmissão utilizada. Os limites aplicáveis são os seguintes. [7] [13]
| Tipo de SAR | Modo normal | Controlado de 1.º nível | Média temporal |
|---|---|---|---|
| Corpo inteiro | 2 W/kg | 4 W/kg | 6 minutos |
| Cabeça (média) | 3,2 W/kg | 3,2 W/kg | 6 minutos |
| Local — cabeça e tronco | 10 W/kg | 20 W/kg | média em 10 g de tecido |
| Local — membros | 20 W/kg | 40 W/kg | média em 10 g de tecido |
Note-se que o limite de SAR da cabeça é de 3,2 W/kg tanto no modo normal como no modo controlado de primeiro nível, não subindo com a mudança de modo. Já os limites de SAR local duplicam na passagem para o modo controlado de primeiro nível. [7] [13] [14]
Existe ainda uma correção associada à temperatura ambiente da sala: acima de determinada temperatura, o limite de corpo inteiro do modo controlado de primeiro nível é reduzido em 0,25 W/kg por cada grau Celsius de subida, até se atingir o limite de 2 W/kg do modo normal. Os limites de corpo parcial são escalados em função da razão entre a massa exposta à RF e a massa total do doente. [7]
3.4 Porque é que o SAR sobe a 3 T
O SAR é aproximadamente proporcional ao quadrado do campo estático, ao quadrado do flip angle — o ângulo com que o impulso de radiofrequência inclina a magnetização, termo que surge tal e qual na consola do equipamento — e ao ciclo de trabalho da sequência. Da dependência quadrática em B₀ resulta que, para a mesma sequência e os mesmos valores de flip angle, a passagem de 1,5 T para 3 T aumenta o SAR por um fator próximo de quatro. [12]
Nas aquisições bidimensionais, o ciclo de trabalho pode ser estimado a partir da duração do impulso de RF, do número de ecos e do número de cortes por período de TR, dividido pelo TR. Esta é a razão física pela qual protocolos com muitos cortes, TR curtos e cadeias de ecos longas são os que mais rapidamente esgotam a margem de SAR. [12]
Implicação para a rotulagem de dispositivos
Um dispositivo aprovado apenas a 1,5 T não pode ser assumido como condicional a 3 T. A duplicação do campo estático não duplica a exposição de RF: multiplica-a por cerca de quatro, além de alterar o comprimento de onda no tecido e, com ele, o comportamento ressonante de elétrodos e condutores alongados. [12] [21]
3.5 Sequências de alto SAR
Como o SAR é proporcional ao quadrado do flip angle, as sequências com maior carga de RF são as que aplicam um grande número de impulsos de refocagem de 180° num intervalo curto. A sequência de eco de spin rápido é o exemplo arquetípico, seguida da família da recuperação de inversão. Os impulsos de saturação de qualquer tipo — saturação de gordura, saturação espacial e sobretudo transferência de magnetização — podem levar a que os limites sejam ultrapassados. [8]
Como regra geral, as sequências de eco de gradiente produzem uma carga de RF muito inferior, uma vez que utilizam inversões de gradiente em vez de impulsos de refocagem para reformar o sinal. As exceções são as sequências de eco de gradiente com TR extremamente curtos, como as bSSFP, e as angiografias por tempo de voo, que incluem além disso bandas de saturação móveis que acrescentam carga de RF. [8]
3.6 Estratégias de redução do SAR
Praticamente todas as estratégias de redução do SAR têm consequências na imagem. A escolha deve por isso ser deliberada e adequada à questão clínica. [8] [20]
| Estratégia | Efeito colateral |
|---|---|
| Aumentar o TR sem aumentar o número de cortes | Aumento do tempo de exame |
| Reduzir o flip angle inicial (impulso de excitação) | Alteração do contraste e perda de relação sinal-ruído; particularmente eficaz em sequências de TR muito curto, como as bSSFP |
| Reduzir o ângulo dos impulsos de refocagem em FSE/TSE (de 180° para 135°–150°, ou 60°–130°) | Efeito surpreendentemente reduzido no contraste, mas com perda de relação sinal-ruído |
| Reduzir o número de cortes sem reduzir o TR | Aumento do tempo de exame ou perda de cobertura anatómica |
| Reduzir o comprimento da cadeia de ecos (fator turbo) | Aumento do tempo de exame |
| Reduzir o número de linhas de espaço-k, campo de visão retangular ou imagem paralela | Perda de resolução, perda de relação sinal-ruído e possíveis artefactos |
| Evitar ou minimizar sequências de alto SAR; se necessárias, intercalá-las com sequências de baixa carga | Permite o arrefecimento tecidular entre sequências; aumenta o tempo total |
3.7 O caso particular dos elétrodos
Nos doentes com elétrodos — e, de forma geral, com qualquer condutor alongado, incluindo elétrodos abandonados — o risco dominante não é o aquecimento global do corpo, mas o aquecimento local junto à extremidade distal. Um elétrodo comporta-se como uma antena, captando potência de RF e depositando-a em torno dos seus contactos terminais, com o consequente aquecimento local do tecido. [23]
O sistema torna-se ressonante quando o comprimento do condutor se aproxima de metade do comprimento de onda do campo de RF no meio envolvente, situação em que o condutor pode ser tratado como um dipolo simples. Como o comprimento de onda depende da frequência de Larmor, e portanto do campo estático, o comprimento crítico é diferente a 1,5 T (aproximadamente 64 MHz) e a 3 T (aproximadamente 128 MHz). [22]
Um aspeto frequentemente subestimado é que a trajetória do elétrodo dentro do corpo e a sua orientação relativamente ao campo de RF afetam substancialmente o aquecimento. O SAR de corpo inteiro caracteriza a exposição sistémica global, mas os pontos quentes locais encontram-se tipicamente nas regiões periféricas do corpo e não necessariamente junto ao implante, pelo que o SAR de corpo inteiro é, por si só, um mau descritor do risco local. [18]
O Módulo 4 — B1+rms aprofunda este ponto: um parâmetro complementar ao SAR, pensado precisamente para modelar melhor o aquecimento intenso e localizado em torno de peças condutoras.
Aviso de Responsabilidade Clínica
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa e não substitui, em caso algum, a consulta dos manuais originais do fabricante do dispositivo nem as normas internas da instituição de saúde. A responsabilidade final pela validação das condições de segurança e pela execução do exame permanece do profissional de saúde executante.